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Depressão pode ter relação com o intestino? Psiquiatra explica o que a ciência já sabe sobre o eixo intestino-cérebro

Dra. Maria Fernanda Caliani explica como microbiota, inflamação, alimentação e substâncias produzidas no intestino podem participar da saúde mental — e alerta que probióticos não substituem antidepressivos ou psicoterapia


Tristeza persistente, cansaço extremo, falta de motivação, alterações no sono e mudanças no apetite são sintomas frequentemente associados à depressão.


Mas a ciência vem mostrando que, em alguns pacientes, entender o que acontece no cérebro também passa por olhar para outro órgão: o intestino.


Segundo a Dra. Maria Fernanda Caliani, médica psiquiatra, existe uma comunicação permanente entre sistema gastrointestinal e sistema nervoso conhecida como eixo intestino-cérebro.


“A psiquiatria hoje não olha mais apenas do pescoço para cima. O intestino envia informações para o cérebro e o cérebro também envia informações para o intestino. É uma verdadeira via de mão dupla”, explica a psiquiatra.


Essa comunicação acontece por diferentes caminhos.
Há mecanismos imunológicos e hormonais, substâncias produzidas pelas bactérias intestinais que chegam à circulação e também uma via neurológica direta, principalmente por meio do nervo vago.


“É como se existissem várias formas de comunicação acontecendo ao mesmo tempo. Temos sinalização pelo sistema imunológico, pelo sistema endócrino, pelo nervo vago e também por mensageiros químicos produzidos no intestino”, ressalta a médica.


QUANDO A MICROBIOTA PERDE O EQUILÍBRIO


Um dos conceitos centrais nessa discussão é a disbiose.
A microbiota intestinal é formada por uma enorme comunidade de microrganismos que vivem no intestino. Quando existe alteração relevante desse equilíbrio, fala-se em disbiose.


“Isso pode acontecer em diferentes situações, como estresse crônico, alimentação pobre em fibras e uso de antibióticos. O importante é entender que as bactérias intestinais participam da produção de várias substâncias que interferem no funcionamento do organismo”, explica a Dra. Maria Fernanda Caliani.


Pesquisas vêm encontrando diferenças na microbiota e em metabólitos intestinais de alguns pacientes com depressão, embora não exista ainda um padrão único de microbioma que caracterize a doença.


BUTIRATO: UMA DAS SUBSTÂNCIAS QUE CHAMAM A ATENÇÃO DA CIÊNCIA


Entre os compostos estudados estão os ácidos graxos de cadeia curta, como acetato, propionato e butirato.
Eles são produzidos principalmente quando bactérias intestinais fermentam fibras da alimentação.


“O nosso organismo sozinho não consegue digerir determinadas fibras. As bactérias fazem esse trabalho e, nesse processo, produzem substâncias como o butirato”, explica a psiquiatra.


O butirato participa da manutenção da barreira intestinal e vem sendo estudado também por possíveis efeitos relacionados à inflamação e à neuroplasticidade.
“É uma área muito interessante porque estamos percebendo que aquilo que acontece no intestino pode influenciar mecanismos muito além da digestão”, ressalta a médica.


O QUE É O CHAMADO “INTESTINO PERMEÁVEL”?


Outra hipótese estudada envolve alterações na barreira intestinal.
Em condições de desequilíbrio, a integridade dessa barreira pode ficar comprometida, facilitando maior contato do sistema imunológico com componentes bacterianos.


“De maneira simples, é como se as junções entre as células da parede intestinal ficassem menos eficientes. Substâncias que deveriam permanecer restritas ao intestino passam a interagir mais com o sistema imunológico”, explica a Dra. Maria Fernanda Caliani.


Entre essas substâncias estão os lipopolissacarídeos, ou LPS, componentes presentes na membrana de determinadas bactérias.


A ativação imunológica pode aumentar a produção de mediadores inflamatórios, como algumas citocinas.
“Quando esse processo se torna persistente, podemos ter um estado de inflamação sistêmica de baixo grau. E a inflamação é uma das vias que a ciência investiga hoje na relação entre corpo e depressão”, ressalta a psiquiatra.


A depressão é uma condição multifatorial, e a inflamação não explica todos os casos, mas mecanismos imunológicos vêm sendo amplamente estudados como parte de sua fisiopatologia.


QUANDO A INFLAMAÇÃO CHEGA À CONVERSA SOBRE O CÉREBRO


Substâncias inflamatórias produzidas no organismo podem influenciar a comunicação com o sistema nervoso e afetar células como a micróglia, envolvidas na resposta imunológica cerebral.


“É aí que entramos no conceito de neuroinflamação. Em alguns contextos, esses mecanismos podem interferir em processos ligados à neuroplasticidade e à comunicação entre os neurônios”, explica a médica.


A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de modificar e criar conexões.
Outro elemento citado pela psiquiatra é o BDNF, fator neurotrófico relacionado à sobrevivência e adaptação dos neurônios.


TRIPTOFANO: QUANDO A “MATÉRIA-PRIMA” MUDA DE CAMINHO


Outro mecanismo investigado envolve o triptofano, aminoácido utilizado pelo organismo na produção de serotonina.


Em situações inflamatórias, parte desse triptofano pode ser direcionada para a chamada via da quinurenina.
“O triptofano pode seguir caminhos metabólicos diferentes. Em contextos de inflamação, existe maior ativação da via da quinurenina, e alguns dos metabólitos produzidos nesse processo vêm sendo estudados pela relação com o funcionamento cerebral”, explica a Dra. Maria Fernanda Caliani.


Por isso, segundo a médica, a visão atual da depressão é mais complexa do que simplesmente pensar em “falta de serotonina”.


“Hoje sabemos que depressão não se resume a um único neurotransmissor. Existem fatores genéticos, psicológicos, ambientais, hormonais, imunológicos e metabólicos envolvidos”, reforça a psiquiatra.


FIBRAS ALIMENTARES ENTRAM NESSA HISTÓRIA


A alimentação também faz parte dessa conversa justamente porque as fibras servem de substrato para as bactérias intestinais.
“Quando as bactérias fermentam essas fibras, produzem acetato, propionato e butirato. Por isso, uma alimentação adequada interfere diretamente no ambiente intestinal”, explica a médica.


Isso não significa que uma dieta específica cure depressão.
O ponto, segundo a Dra. Maria Fernanda Caliani, é compreender que saúde mental e saúde física não funcionam de maneira isolada.


“O corpo é integrado. Alimentação, sono, estresse, atividade física, funcionamento intestinal e saúde mental conversam entre si.”


E OS PROBIÓTICOS?


É justamente dentro dessa discussão que os probióticos começaram a ser estudados como uma possível estratégia adjuvante em alguns pacientes com depressão e ansiedade.


A palavra-chave, reforça a psiquiatra, é adjuvante.
“Probiótico não substitui antidepressivo e não substitui psicoterapia. Ele pode, em alguns casos, ser estudado como um complemento dentro de um tratamento muito mais amplo”, alerta a Dra. Maria Fernanda Caliani.


“Os resultados são promissores, mas ainda estamos longe de dizer que existe um ‘psicobiótico’ capaz de tratar depressão sozinho. É um caminho científico em construção, não uma solução pronta”, ressalta a médica.


NÃO É QUALQUER PROBIÓTICO


Outro ponto importante é que não basta simplesmente comprar qualquer produto.
“Probiótico não é tudo igual. Existe diferença entre cepas, doses e indicações. Não é porque alguém tomou um determinado produto que ele automaticamente será adequado para outra pessoa”, explica a psiquiatra.
Ela também faz um alerta para a expectativa de resultados imediatos.


“Quando há indicação desse tipo de abordagem, a resposta não costuma acontecer do dia para a noite. E ela precisa fazer sentido dentro do quadro clínico daquele paciente.”


PROBIÓTICO NÃO COMPENSA UMA DIETA RUIM


Para a Dra. Maria Fernanda Caliani, há ainda um erro frequente: imaginar que a suplementação neutraliza hábitos pouco saudáveis.
“Não adianta tomar probiótico e continuar com uma alimentação baseada em ultraprocessados esperando que uma cápsula resolva tudo. Alimentação, estilo de vida e tratamento adequado continuam sendo a base”, reforça a médica.


O objetivo de qualquer intervenção complementar, segundo ela, deve ser melhorar o contexto geral de saúde do paciente.
“A ideia é reduzir fatores que podem contribuir para um pano de fundo inflamatório e criar condições melhores para que os outros tratamentos funcionem. Mas sem prometer que uma única intervenção vai resolver um quadro complexo como a depressão.”


ESTRESSE TAMBÉM CONVERSA COM O INTESTINO


A relação funciona nos dois sentidos.
Assim como alterações intestinais podem enviar sinais para o cérebro, o estresse também pode modificar o funcionamento gastrointestinal.


“Estresse crônico, autocobrança, perfeccionismo e elevação persistente do cortisol podem repercutir no intestino. É mais uma demonstração de que não conseguimos separar completamente saúde mental e saúde física”, observa a Dra. Maria Fernanda Caliani.
Por isso, para a psiquiatra, compreender o eixo intestino-cérebro não significa reduzir a depressão a uma doença intestinal.
Significa ampliar a forma de enxergá-la.


“Precisamos evitar dois extremos. Não podemos ignorar o papel do intestino, da inflamação e desses mecanismos biológicos, mas também não podemos simplificar uma doença complexa e dizer que tudo começa no intestino”, ressalta.


Depressão continua exigindo avaliação médica, diagnóstico adequado e tratamento individualizado.
“O avanço está justamente em entender que o paciente é um organismo inteiro. Cérebro, intestino, sistema imunológico, alimentação, estresse e comportamento fazem parte da mesma pessoa. Quanto melhor entendermos essas conexões, mais completo pode ser o cuidado”, conclui a Dra. Maria Fernanda Caliani.


Fonte: Clínica de Neurologia e Psiquiatria https://share.google/2M4VXANpGFmSRpWOP