Instituto Coletivo Cultural reúne Nilze Carvalho, Áurea Martins, Babi Benicio e Márcio Preza em ocupação que troca o Centro pela periferia e coloca o samba de volta em casa
Há projetos que nascem em gabinetes. E há outros que nascem na rua, no ponto de ônibus lotado, na conversa de bar. O A Lapa é Aqui pertence à segunda categoria.
Idealizado pelo Instituto Coletivo Cultural, o projeto parte de uma constatação incômoda e verdadeira: no Rio de Janeiro, a cultura ainda tem CEP. Concentra-se no Centro e na Zona Sul, enquanto a Zona Oeste, que produz parte decisiva da música popular brasileira, segue tendo que se deslocar por horas para assistir a um bom show.
O Instituto conhece essa realidade por dentro. Fundado em 2013 em Campo Grande pelos produtores culturais Many Pereira e Anderson Nascibeckerr, nasceu com uma missão clara: transformar cultura em cidadania. O nome carrega a laranja estilizada no logotipo, homenagem aos tempos em que a região era chamada de Citrolândia. De lá para cá, firmou parcerias com o Centro de Referência Carioca do Samba e o Instituto Nossa Senhora do Teatro, sempre trabalhando na base, onde o poder público nem sempre chega.

Agora, contemplado pelo Edital Fluxos Fluminenses 2026, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, através da Política Nacional Aldir Blanc, o Instituto prepara sua aposta mais ambiciosa.
O A Lapa é Aqui é uma ocupação artística que propõe levar a atmosfera da Lapa, com sua boemia mítica, seu samba de raiz e sua mistura, para o coração da Zona Oeste. Não como cópia, mas como reencontro. Porque a tese do projeto é simples: a Lapa não precisa ser importada. Ela já existe na Zona Oeste. Só precisa de palco.
E o palco vem com peso. No elenco, quatro nomes que atravessam gerações: Nilze Carvalho, Áurea Martins, Babi Benicio e Márcio Preza. A lógica é deliberadamente invertida. Quem recebe é a Zona Oeste. Babi Benicio, artista da nova geração, divide a cena com Áurea Martins, uma das vozes mais respeitadas do país, nascida justamente naquela região. Em outro momento, Márcio Preza, outro talento local, recebe Nilze Carvalho. É o anfitrião apresentando a casa para a visita ilustre.
Ao redor da música, uma feira de gastronomia e artesanato com empreendedores locais, em barracas temáticas inspiradas na estética da Lapa. Cultura que não apenas entretém, mas movimenta a economia do território.
Por enquanto, os organizadores fazem mistério sobre o local e a data. O que se sabe é que será em breve, em um espaço popular da Zona Oeste, com entrada gratuita e acessibilidade garantida. O anúncio oficial deve acontecer nos próximos dias, e a expectativa já movimenta artistas e produtores da região.
Mais do que um festival, o A Lapa é Aqui é um posicionamento. Em um país onde a descentralização cultural ainda é promessa, um instituto nascido na periferia decide fazer com as próprias mãos: se o povo da Zona Oeste não pode ir sempre à Lapa, a Lapa vai até o povo.
E quando isso acontece, quem ganha não é um bairro. É o Rio inteiro.





