Psicóloga Daisy Cangussú alerta que empresas precisam transformar o discurso sobre saúde mental em práticas permanentes de acolhimento, escuta e prevenção
Durante o Setembro Amarelo, empresas de diferentes setores ampliam ações de conscientização sobre saúde mental e prevenção do suicídio. A mobilização é importante, mas, para a psicóloga Daisy Cangussú, “a mobilização também pode contribuir para uma reflexão mais ampla sobre como o cuidado com a saúde mental está presente no cotidiano das organizações.”
A relevância do tema também se evidencia no crescimento dos afastamentos associados a transtornos mentais e comportamentais entre trabalhadores brasileiros. Segundo dados da Previdência Social, 472.328 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais foram concedidos em 2024, um crescimento expressivo em relação ao ano anterior. Em 2025, dados preliminares apontam a concessão de 546.254 benefícios, aumento de 15,66% em relação a 2024 e novo recorde da série recente.
Nesse contexto, a atenção à saúde mental nas organizações ganha relevância para além de ações pontuais de comunicação interna.
A Fundacentro, vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, também chama atenção para a importância de ações preventivas que considerem os fatores psicossociais e a própria organização do trabalho.
O tema ganhou ainda mais relevância em 2026, com a entrada em vigor da nova redação da NR-1, que passou a incluir expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais.
Para Daisy, a construção de uma cultura organizacional saudável passa por ações de cuidado e prevenção antes que situações de sofrimento se agravem.
“O Setembro Amarelo amplia o diálogo sobre saúde mental e reforça a importância de manter esse cuidado presente ao longo de todo o ano, com espaços de escuta, acolhimento e relações de trabalho mais saudáveis.”
Identificar sinais antes que o sofrimento se agrave
Mudanças significativas de comportamento, como isolamento, irritabilidade, alterações no sono, dificuldade de concentração, queda persistente de rendimento ou afastamento de atividades habituais, podem sinalizar que um profissional está atravessando um período de maior vulnerabilidade ou sofrimento emocional.
O Ministério da Saúde também aponta sintomas como cansaço físico e mental, dificuldade de concentração, alterações de humor, insônia e isolamento entre os sinais associados ao Burnout.
A especialista ressalta, porém, que perceber essas mudanças não significa fazer diagnósticos ou assumir sozinho a responsabilidade diante de uma situação de sofrimento.
“Acolher começa pela disponibilidade para ouvir com atenção, respeito e sem julgamentos. Muitas vezes, essa escuta pode fazer diferença para quem está atravessando um momento de sofrimento. É importante que a pessoa perceba que não está sozinha, que pode falar sobre o que está vivendo e que há caminhos de apoio e cuidado adequados para cada situação.”
O papel das lideranças
Nesse processo, as lideranças têm um papel importante. Isso não significa ter respostas para todas as situações, mas estar disponível para perceber mudanças, abrir espaço para o diálogo e orientar a busca por apoio adequado quando necessário.
“O papel da liderança consiste, sobretudo, em escutar com respeito, reconhecer limites e perceber quando é importante orientar o profissional a buscar uma rede de apoio ou acompanhamento especializado”, afirma Daisy.
A construção de ambientes mais saudáveis também passa pela atenção a fatores relacionados à organização do trabalho, como demandas excessivas, baixa autonomia, jornadas inadequadas, falhas na comunicação e desequilíbrio entre as exigências profissionais e os recursos disponíveis.
Saúde mental como compromisso permanente
Para Daisy, campanhas como o Setembro Amarelo contribuem para ampliar o diálogo, favorecer a conscientização e reduzir estigmas relacionados à saúde mental. O impacto dessas iniciativas tende a ser maior quando o tema encontra continuidade nas práticas e relações cotidianas da organização.
“Falar sobre saúde mental em setembro é uma iniciativa valiosa, especialmente por ampliar o diálogo e contribuir para a redução de estigmas. Para que esse compromisso se traduza em prática, é importante que esteja presente ao longo de todo o ano, nas relações, na atuação das lideranças, nos processos de trabalho e na forma como a organização cuida das pessoas.”
A psicóloga defende uma atuação permanente, que combine a identificação e o gerenciamento de fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho com a capacitação de lideranças, canais de escuta, redes de apoio e incentivo à busca por acompanhamento profissional quando necessário.
O objetivo é transformar a conscientização promovida pelas campanhas em um cuidado contínuo, incorporado à cultura e às práticas da organização.
Em situações de sofrimento emocional, é importante buscar apoio de um profissional de saúde mental. Também é possível recorrer aos serviços da rede pública de saúde, como as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188. Em situações de urgência ou risco imediato, a orientação é procurar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou um pronto-socorro, ou acionar o SAMU pelo telefone 192.
Daisy Cangussú é psicóloga, escritora e empreendedora, com mais de 30 anos de experiência em gestão de pessoas, desenvolvimento de lideranças, gestão de crises e saúde mental organizacional. É fundadora da Wapiya Gestão de Pessoas e Diversidade e da Wapiya Saúde Mental e Bem-Estar, atuando no desenvolvimento de estratégias voltadas à gestão de pessoas, cultura organizacional, desenvolvimento humano e promoção da saúde mental. Também é coautora de obras reconhecidas e premiadas internacionalmente nas áreas relacionadas à sua atuação profissional.





